A primeira vez que eu me dei conta da pobreza e desigualdade do mundo, eu era criança ainda e percebi que o filho do farmacêutico, meu vizinho, havia ganhado de presente de Natal uma bicicleta e que o filho do seu empregado havia ganhado um caminhão de plástico. Então o Papel Noel não era igual para todos?
Após a primeira lição na vida do que era desigualdade, tive a segunda lição do que poderia ser feito para diminuir essa desigualdade. Havia ido passar as férias escolares na casa de minha avó, Dª Geralda, que era viúva e ganhava seu sustento lavando e passando roupas para famílias que contratavam seus serviços. Era uma pessoa religiosa, que aprendera a partilhar o pouco que tinha com os pobres. Ensinou-me que o agasalho que já não me servia mais podia agasalhar um pobre. Que se eu tivesse um bom sapato e viesse a ganhar outro par, deveria dar um destes para alguém que não tinha nenhum. E que se assim eu procedesse, nada haveria de me faltar, porque ela lera na Bíblia que é dando que se recebe e que ela, ao agir dessa maneira, nada de essencial lhe havia faltado.
Hoje, relembrando essas lições, penso que se cada um de nós tivéssemos apenas o necessário para nossa sobrevivência, não existiria a pobreza nem a desigualdade. Mas como fazer isso? Como extirpar do coração do homem a indiferença que é a origem desse grande mal? Será possível?
Muitas guerras e revoluções já se travaram no mundo real motivadas por esse dilema, que ainda perdura em nossos dias atuais, mas em contraponto, com cada vida que surge, renasce junto à esperança de que pessoas novas, com idéias novas, ânimo novo, vivendo em épocas de novos desafios, com novos instrumentos, possam travar a batalha final e vencer, fazendo com que as palavras: fome, doença, analfabetismo, desemprego, violência, corrupção e miséria, que são as raízes da desigualdade, constem apenas nos livros de histórias que leremos um dia para os nossos filhos, pois tais fatos já não ocorrerão desde o dia em que a humanidade toda se empenhou para essa vitória, cooperando e partilhando suas riquezas e conhecimentos uns com os outros e eliminando as fronteiras que dividiam as nações tornando-se assim uma imensa e única aldeia global, não de povos dominadores e de dominados, mas de fraternidade, liberdade e igualdade. E como tornar esse sonho em realidade? Creio que pelo começo, tal qual se aprende a ler e escrever, onde primeiro se rabisca e desenha às primeiras letras, para depois formar as sílabas, e um dia chegar a escrever uma enciclopédia inteira, se este for o objetivo; ou o compositor que aprende as escalas musicais e depois de praticá-las bastante, consegue um dia compor uma sinfonia, se este for seu objetivo.
Se acabar com a pobreza e a desigualdade for o objetivo de todos, haveremos de completar uma grandiosa obra, principiando com as letras das palavras:
C-R-I-A-T-I-V-I-D-A-D-E—E— S-O-L-I-D-A-R-I-E-D-A-D-E-!